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Café Reggio em Nova York

23 de novembro de 2016 16:18:16 BRST

Em 1927, Nova York já era uma poderosa metrópole, com sei milhões de habitantes e uma economia forte, impulsionada principalmente pelo trabalho duro de imigrantes europeus, deixando para três países despedaçados nas guerras do século XIX, ansiosos para refazer a vida. Os italianos representavam uma grande parte dos recém chegados aos EUA no início do século XX; a maioria vinha da lavoura e da prestação de serviços como padeiros, alfaiates e comerciantes.

Entre os que desembarcavam em Nova York estava o barbeiro Domenico Parisi. Na década de 1920, depois de quarenta anos cortando cabelos e aparando barbas, começou a perder a visão. Parisi não se rendeu ao infortúnio: tratou de investir sua poupança de mil dólares – o equivalente hoje a quase US$ 13mil -, importou da Itália a primeira máquina de café espresso da cidade e a instalou num pequeno espaço no sul da ilha de Manhattan, no 119 da MacDougal Street. Batizou o local de Caffe Reggio, o primeiro estabelecimento – dizem muitos – dedicado à bebida em Nova York – e ficou famoso por ter introduzido o cappuccino no país.

Suas excentridades também marcaram época: a decoração tinha pinturas da escola de Caravaggio, luminárias de vidro veneziano e um banco que teria pertencido à família Médici nos idos de 1400. Só Parisi operava a máquina; tirava espressos usando chapéu (dizia que, de cabeça descoberta, espirraria); e no seu estabelecimento só se tomava café. Ponto. Nada de omeletes, sopas, tortas de maça. Sua grande máquina Torino, fabricada em 1902, dominava o salão: um tanque cromado, com dragões na base e um anjo no topo, e nove torneiras de onde saía o café, “em três segundos, fazendo um barulho que torna a conversação impossível”, escreveu-se no Herald Tribune. E o cappuccino? “Trata-se de uma maravilhosa mistura de café forte, leite evaporado e canela”, derretia-se o jornalista.

Da Era Beatnik até Hoje                                                                                                    

Em 1955, o lugar foi arrematado por Niso e Hilda Cavallacci (hoje, quem toma conta do negócio é o filho Fabrizio). A fama cresceu. O Greenwich Village passou a ser um bairro boêmio, frequentado por artistas. Jack Kerouac, autor de On the road, e Bob Dylan estiveram por lá. Um jovem candidato à presidência, John Kennedy, fez ali um discurso de campanha em 1959. E o local aparece nas telas de cinema: foi locação do Shaft de 1971; de O poderoso chefão II, de 1974; de Próxima parada, bairro boêmio – de 1976, com Cristopher Walken – e The next man, protagonizado por Sean Connery. O Reggio ainda mantém, nos dias de hoje, o ambiente intacto e o slogan (“original cappuccino”) no toldo verde.

É fácil chegar lá: fica pertinho da Washington Square. Hoje, o local é frequentado por estudantes da New York University e serve um vasto cardápio, a preços acessíveis – sanduíches, sopas e pasta custam entre 6 e 11 dólares. A máquina Torino enfeita o salão de paredes cor de terra. E, sem esforço, o visitante pode sentir o aroma dos muitos cafés e cappuccinos tirados no capricho ao longo destes quase 90 anos de funcionamento.

Fonte: Café & Prosa